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Cobi Cruz
Diretor executivo Organis
Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA): O que São e Como Participar?

Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA): O que São e Como Participar?

Você sabe o que é uma CSA? Essa sigla significa Comunidade que Sustenta a Agricultura. Ela funciona como uma sociedade entre consumidores, que se dispõem a pagar um valor mensal, e um grupo de produtores, que se compromete a entregar produtos orgânicos por um período estipulado.

A partir da formação da CSA, o agricultor pode contar com os compradores como se fossem seus “sócios apoiadores”. Essa demanda garantida dá a ele a possibilidade de prever a entrada de recursos, melhorando a qualidade de vida de quem trabalha em suas propriedades.

O sócio da CSA tem a garantia de contar com produtos de qualidade, a preços diretos do sítio, com uma seleção de alimentos variada. Além disso, tem direito de verificar o processo por meio de visitas aos locais de produção. O encontro e a troca de ideias com os agricultores apoiados e com outros sócios-apoiadores faz parte da dinâmica.

Neste artigo eu destaco uma lista de CSAs, entre as muitas que atuam em todas as regiões do Brasil. Confira!
  • Turvo (SP) + Curitiba (PR)
    CSA CEAFIM

    O Centro de Envolvimento Agroflorestal Filipe Moreira, mais conhecido como CSA CEAFIM, chama a atenção não apenas pelas delícias saudáveis que fornece, mas também pela forma como foi constituído. Ele mostra na prática as novas e surpreendentes possibilidades que as CSAs podem abrir nas relações de produção e consumo. Isso porque uniu dois grupos separados por 190km, um deles de produtores de Barra do Turvo, em São Paulo, e outro de co-agricultores, leia-se compradores, de Curitiba, no Paraná.

    Por isso é bom começarmos nosso papo com um pouco de história. Pois a CSA CEAFIM teve um longo e interessante percurso até chegar ao que é hoje, uma bem estruturada rede de consumo consciente e pacto social solidário. Aqui vai um pequeno resumo da aventura e você pode entrar no site da comunidade para conhecer melhor.

    Tudo começou com o ex-metalúrgico Pedro Baiano, que havia migrado para o ABC paulista, mas retornou à região em busca de novas perspectivas longe do caos urbano. Logo na chegada ele teve consciência do contraste entre a carência da população, um dos mais baixos IDH do país, e o potencial de abundância da exuberante natureza local. A partir daí, passou a liderar as famílias na busca de alternativas não apenas de sobrevivência, mas de prosperidade sustentável.

    Acontece que as terras cultiváveis já não comportavam a agricultura convencional, haviam sido esgotadas pela pecuária, pelas queimadas, pelo hábito de expor excessivamente terra nas atividades de capina. Era preciso recuperar o vigor do solo. Mas, como? A resposta veio em 1995, com a visita de um técnico da Embrapa que, observando o ambiente, receita um remédio: agricultura sintrópica. Ou, para ficar um pouco mais fácil de entender, recomendou o modo agroflorestal de cultivo, desenvolvido pelo pesquisador suíço Ernest Götsch. Descobriram que existia uma agricultura regenerativa. E lá foi um grupo de Barra do Turvo para a fazenda do Ernest, na Bahia, aprender esse milagre de fazer voltar a vida - que não é milagre, mas ciência.

    Voltaram a Barra do Turvo cheios de entusiasmo e imediatamente iniciaram mutirões - característica marcante da cultura quilombola, muito forte por ali. O sucesso prático dos pioneiros das técnicas agroflorestais foi chamando a atenção dos vizinhos até tornar-se um grande e bem-sucedido empreendimento coletivo. Se você gostou e pensa em levar a experiência para sua região, uma boa notícia: a CSA CEAFIM mantém uma estrutura para receber aqueles que quiserem aprender, em ritmo de imersão, os conceitos e técnicas regenerativas.

    Em 2019, a comunidade resolveu dar um novo passo, a organização de uma CSA. No mesmo ano, já estavam em Curitiba, fazendo a primeira partilha dos alimentos colhidos dentro do sistema. Na capital do Paraná, a iniciativa foi acolhida desde o início e cresce cada vez mais o número de compradores fixos, aqueles que fecham a outra ponta do negócio, a do consumo solidário.

    Gostou? Quer participar de alguma maneira dessa prática inovadora e sustentável? É só clicar no link do site.
  • Angelina (SC) + Florianópolis (SC)
    CSA Floripa Saraquá

    Se você mora nos bairros da região central de Florianópolis, parabéns! Você pode se tornar sócio-apoiador da CSA Floripa Saraquá e pegar, toda terça-feira, nos pontos de partilha, uma deliciosa cesta de alimentos agroecológicos colhidos no dia anterior e cuja composição varia de semana para semana.

    A mão na massa, ou melhor, na terra, é por conta da família que toca o Sítio Saraquá, que produz mais de 50 tipos de produtos, entre folhosas, raízes, frutas, temperos, frutos, tubérculos, PANCs e flores comestíveis.

    Fora a cota de vegetais, o pacote pode incluir ovos caipiras e pão de fermentação natural, cereais, farinhas, além dos itens que podem ser encomendados por catálogo, como geleias, mel, conservas, sucos, congelados, temperos e muitos outros, todos feitos nas dependências do sítio e igualmente orgânicos.

    Outra coisa boa é conhecer e conviver com a dupla que comanda a produção da CSA Floripa Saraquá, o simpaticíssimo casal de agrônomos Tânea e Vitor, que também é engenheiro florestal. Eles têm muitos títulos acadêmicos e continuam pesquisando, mas basta uma conversa para descobrir que vão muito além da técnica e da ciência.

    Há neles um sentido de simplicidade que nasce da profunda entrega ao que fazem. E isso nos inspira confiança e admiração. Sim, eles acreditam que o mundo pode mudar para melhor a partir de uma relação respeitosa com a natureza e de irmandade entre as pessoas.

    Muitos perguntam o que afinal significa o “saraquá” que deu nome ao sítio. E eles explicam que é o nome de uma ferramenta indígena cujo uso eles resgataram no dia a dia. Trata-se de uma haste de madeira usada para furar a terra no plantio. Mais tarde, a ferramenta foi adaptada e ganhou um compartimento para sementes, que caem automaticamente, uma a uma, nas covas recém-abertas. Simples, eficiente e que mexe o mínimo possível na estrutura do solo, preservando assim a sua fertilidade.

    Os integrantes do lado consumidor da CSA, além de receberem os alimentos, têm o privilégio de poder participar das atividades do sítio, com suas famílias. Uma dica: as crianças vão adorar! É só programar a visita e se maravilhar com as plantas, os rios e os animais – com sorte, podemos ver belíssimos saguis, bugios e tucanos, por exemplo.
  • Monteiro Lobato + São Paulo (SP)
    CSA Comida da Terra

    Acredite. Mesmo vivendo em meio ao fervo da maior megalópole do Hemisfério Sul, é possível resgatar uma porção de nosso vínculo precioso com a natureza. E, dando um grande passo além, ainda podemos agir diretamente para que ela permaneça saudável e produtiva.

    Praticando aquilo em que acreditam, é exatamente isso que faz todos os dias o pessoal da CSA Comida da Terra, que se organizou na cidade de São Paulo na forma de uma rede de co-agricultores que viabiliza a produção dos produtos frescos e saudáveis que consomem.

    Em vez de dar força a formas de consumo predatórias, que produzem destruindo os recursos naturais, toda semana os participantes vão aos pontos de entrega retirar suas cotas de alimentos levando suas próprias sacolas, caixas ou carrinhos.

    Hoje, para facilitar a vida de todos os envolvidos, existem três pontos de convivência da CSA Comida da Terra: Zona Sul (Vila Mariana), Centro (República) e Zona Oeste (Pompéia/Vila Madalena).

    A outra metade desse inovador arranjo produtivo fica por conta da família de agricultores formada por Thiago, Joana, Mateus e Manuela que, desde 2017, toca o Sítio São Benedito, na cidade de Monteiro Lobato (SP). É nesse cenário deslumbrante da Serra da Mantiqueira que podemos sentir e respirar os efeitos benéficos de um negócio sem exploradores e explorados.

    Ali se produz alimentos vivos, sem nenhum tipo de agrotóxico, hormônio, adubo químico sintético ou qualquer outra coisa que possa prejudicar a saúde das pessoas, da terra, da água, do ar, dos animais.

    Com técnicas orgânicas de permacultura, sistema agroflorestal, saberes ancestrais de impacto mínimo e muito pé no barro, o sítio São Benedito se transformou de um ambiente destruído por séculos de monocultura em espaço de vida e esperança.

    Os lá da cidade grande, os sócios-apoiadores da iniciativa, podem passear pelo sítio, para testemunhar a evolução constante desse futuro no qual eles acreditam. E apostam.
  • Santa Cruz da Conceição + São Paulo (SP)

    CSA Fazenda Santa Julieta Bio

    Vamos combinar que São Paulo é grande. Então, cabe nela mais uma recomendação de CSA que atua na cidade, para facilitar a vida dos paulistanos que desejam apoiar esse sistema de distribuição de alimentos tão sustentável quanto a produção.

    A CSA Fazenda Santa Julieta Bio faz suas partilhas de produtos orgânicos certificados na capital e tem sua sede a 215 km, na pequena e tranquila Santa Cruz da Conceição, ali para os lados de Piracicaba.

    Na fazenda se pratica uma agricultura regenerativa de raiz que, a cada dia, recupera mais solos e nascentes antes degradados. Para entrar no time dos sócios-apoiadores e fazer parte do grupo que viabiliza essa forma inovadora de consumo consciente, é só escrever para tanaepoca@stajulieta.bio, que o Rafael Coimbra logo entra em contato.

    Aliás, recomendo que você aproveite a ocasião para programar uma visita e ver de perto o extremo cuidado em todas as fases da produção, sem contar que o local é belíssimo e vale só pelo passeio.

    Eu comecei dizendo que a CSA Fazenda Santa Julieta Bio facilita o dia a dia? Pois é, na verdade deixa cinco vezes mais prático para você, pois são cinco os centros de convivência onde as partilhas são feitas.

    Ir até o local buscar sua cesta de alimentos é parte importantíssima do sistema, pois permite a integração próxima e fraterna entre quem consome e quem produz. E tem mais, é também uma boa oportunidade de encontro com os demais coprodutores, gente que pensa como você e com as quais, certamente, terá muitos outros pontos em comum a compartilhar.

    Sair da correria da vida e conversar fora do mundo virtual como pessoas preocupadas com a saúde e a preservação do meio ambiente faz parte deste pacote de sustentabilidade e respeito à vida.

    Outra coisa. A Fazenda Santa Julieta Bio produz também uma linha de infusões diferenciada, com quatro combinações de ervas orgânicas: Amargo que cura, Paz de espírito, Colo de mãe e Pura imunidade. As plantas são cultivadas de forma biodinâmica e colhidas nas primeiras horas da manhã, de modo a preservar a vitalidade e potencial energético de cada espécie.

    Isso e muitas outras coisas você vai descobrir quando passar para o lado de cá da porteira da Santa Julieta Bio e começar a praticar essa inovadora forma de comércio que, na verdade, vai bem além do comprar e vender.
  • Encontre as CSAs da região ou comece a sua
    CSA Brasil

    Agora você já sabe que as CSAs são uma forma inovadora de economia, solidária e não-predatória, baseada na atuação conjunta de agricultores e consumidores para o cultivo de alimentos saudáveis.

    Você entendeu, também, que esse arranjo produtivo traz enormes benefícios para a terra, as plantas, a água, o ar, os animais e, por extensão, ao ser humano e ao planeta do qual ele depende.

    Entendido? Então, mãos à obra. Comece pesquisando as CSAs já existentes na sua cidade e una-se a elas. Ou forme novo grupo e proponha parceria com um produtor orgânico da sua região. É mais barato, mais nutritivo, mais econômico e, sobretudo, mais consciente colocar comida na sua mesa desta maneira.

    Se você é, ou pretende ser, um agricultor nesses moldes orgânicos, agroflorestais e sustentáveis, procure informações e apoio com qualquer uma das CSAs que eu destaquei. Eles vão te ajudar, não se preocupe, pois nesta modalidade quem deseja começar não é visto como possível adversário ou concorrente, mas como companheiro de jornada.

    Outra opção é entrar em contato com a CSA Brasil, entidade especializada em difundir essas estruturas agrícolas em todo o país, cujo lema é “da cultura do preço para a cultura do apreço”. Eles estão preparados para dar orientação e apoio, da ideia ao projeto e do projeto à formação do seu sítio e da CSA ligada a ele. Para saber mais, veja o site.

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