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Caio Jade
Filósofo e mestrando em Literatura
Autobiografias Trans: 8 Obras Relevantes nos Estudos de Gênero

Autobiografias Trans: 8 Obras Relevantes nos Estudos de Gênero

Já ouviu falar em autobiografias trans? Não? Então vem comigo! 

O termo “autobiografia trans” começou a ser usado recentemente, mas as narrativas que têm recebido esse nome vêm de muito longe. Nossas histórias e pegadas podem ser encontradas em todas as culturas humanas ao redor do mundo e remontam tradições que não reduzem as experiências de vida ao par homem/mulher, dominante e opressor.

Quando miramos outras lógicas de vida, encontramos vozes em que o “eu” é um canal e um eco de vidas, antepassadas e contemporâneas, que não narram apenas a história de um “eu”, mas de coletividades.

Nem todas as narrativas que indico aqui trazem o termo “trans” ou “travesti” como autonomeações. No entanto, são consideradas “autobiografias trans” pois têm uma relevância fundamental nos estudos de gênero e nas comunidades trans da atualidade.

Ficou curiose? Então se ligue nestas dicas!
  • Madame Satã
    Memórias de Madame Satã
    R$ 39,90

    Nos levantamentos feitos pela pesquisadora e professora Amara Moira, até o presente momento, a primeira autobiografia trans a ser publicada no Brasil foi Memórias de Madame Satã, em 1972. Nesse livro, lemos episódios da vida de Satã, desde sua infância até seus 70 e poucos anos de idade, tal qual teriam sido relatados ao escritor Sylvan Paezzo. 

    A história de Satã é permeada pela malandragem africana, da pernada e da capoeira, na Lapa carioca do começo do século XX. Nos entremeios das perseguições policiais racistas e homotransfóbicas, também encontramos receitas culinárias, apresentações teatrais de sucesso, o companheirismo de malandros, bichas e de bonecas (termo que significa “travestis”, no bajubá*) e o caráter cheio de vivacidade que Satã emana, e que não se dobra diante da violência sofrida no contexto colonialista brasileiro.

    O nome "João Francisco dos Santos", que aparece na nova edição das Memórias de Madame Satã, não era um nome de registro, pois Satã não tinha papeis de registro civil. Esse nome também não aparece no interior de sua obra, o que revela seu desuso. 

    No começo do século XX, filhes de pessoas escravizadas não possuíam registro, por ser algo caro, como nos conta Satã em entrevista ao jornal O Pasquim. Por isso, o nome masculino e português, que aparece na nova edição do livro, é fruto de uma violência corrente e naturalizada que ignora as nomeações de Madame Satã e impõe um nome colonialista e racista que lhe foi atribuído ao nascer.

    “Fiquei seis dias sendo admirado com respeito pelos malandros e mulheres e bichas da Lapa e vigiado de longe pelos policiais.”

    *bajubá ou pajubá: língua formada a partir de ressignificações de outras línguas como o kimbundu, o yoruba e o fon africanos, por exemplo, e o português. É utilizada, principalmente, pela comunidade travesti e também pela comunidade LGBTIA+.
  • Herzer
    A Queda para o Alto
    R$ 7,50

    Ao projetar o livro no começo dos anos 80, o motor inicial da escrita de Anderson Herzer foi a poesia. Só depois nasceram os relatos dos três anos e meio em que ele passou encarcerado na Febem, a antiga Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor, em São Paulo. 

    Herzer foi um jovem boêmio, enérgico e criativo, que escrevia e montava saraus no cárcere, reinventando uma realidade de marginalização a partir de sua potência artística e expressiva. 

    As transmasculinidades de Herzer foram muito mais compreendidas pelas pessoas de seu convívio na Febem, colegas de encarceramento na ala feminina da instituição, do que pela sociedade que o rodeava.

    A Queda para o Alto é uma das autobiografias trans de peso, que ninguém pode deixar de conhecer. Pessoalmente, é uma das minhas favoritas!

    “Um homem jamais morre, enquanto sua existência for recordada.”
  • Ruddy
    Liberdade Ainda que Profana
    R$ 49,00

    Essa é a primeira autobiografia de "Ruddy, a maravilhosa", como ela gostava de assinar. Foi publicada em 1998 e conta histórias de seus trabalhos artísticos no teatro, como atriz e também como cabeleireira, profissão esta que a acompanhou por toda a vida. 

    Ruddy foi uma grande escritora! Teve diversos livros publicados, de contos, poesia, além de sua outra autobiografia, chamada Nem tão bela, nem tão louca. Inclusive, Ruddy foi premiada pela Biblioteca Nacional pelo livro In...confidências Mineiras e Outras Histórias. 

    Em Liberdade Ainda que Profana, uma curiosidade bonita de se acompanhar é a importância do candomblé para Ruddy e o reconhecimento de sua transfeminilidade ao ser nomeada como Iyalorixá, um título de maternidade, cuidado e respeito, segundo tal cultura.

    “Ruddy, a maravilhosa”
  • Jorge Laffond
    Bofes & Babados, por Vera Verão
    R$ 150,00

    Difícil encontrar alguém que não conheça Vera Verão, não é? Mais que uma personagem travesti, Vera aparece nesse livro como uma das vozes que habitam e compõem Jorge Laffond. Tanto que os bofes e os babados são relatados por Vera e assinados por Laffond. 

    Essa pluralidade diz muito da riqueza desse livro. Nele encontramos as vozes de uma pessoa que se apresenta íntegra, forte e espiritual, como Laffond se define desde o começo. 

    Para além da especulação sobre sua vida afetiva, que aparece em todo o livro como uma gincana de almanaque para se descobrir quem seria seu suposto amante, encontramos, por exemplo, a relação de espelhamento e de admiração de Laffond com sua mãe e a importância das culturas de terreiro em sua vida, como o candomblé. 

    Esse livro é um dos mais sensíveis e profundos com os quais me deparei. É preciso apurar os ouvidos para escutar o que está além da caricatura que impuseram a ele.

    “Eu nasci assim, este ser de luz própria”
  • Claudia Wonder
    Olhares de Claudia Wonder: Crônicas e Outras Histórias
    R$ 37,00

    Claudia Wonder foi atriz, cantora de banda punk, performer, enfim, uma multiartista! Nesse livro, temos o trabalho jornalístico que ela realizou à G Magazine no início dos anos 2000. 

    Suas matérias são um levantamento histórico importantíssimo de referências trans ao redor do mundo, tanto nas artes quanto em culturas não-hegemônicas, que consideram as existências que hoje chamamos de “travestis” e “trans” como sagradas. 

    Wonder misturou relatos de sua própria vida com as entrevistas e levantamentos que fez. Ela propôs reflexões sobre preconceitos e limitações que boa parte das sociedades têm com as vivências de sexo/gênero que não são conformadas ao binário homem/mulher. 

    Como uma boa aquariana, Claudia Wonder foi visionária, revolucionária e corajosa em sua vida e em sua obra.

    “Ser homem ou ser mulher é um estado de espírito!”
  • João W. Nery
    Velhice Transviada: Memórias e Reflexões
    R$ 25,00

    João W. Nery foi um dos ativistas transmasculinos com maior visibilidade no Brasil. Sua obra escrita é grande, sendo mais conhecido pelo livro Viagem Solitária: Memórias de um Transexual 30 Anos Depois, em que narra a trajetória de suas vivências de gênero da infância até a paternidade na vida adulta. 

    Velhice Transviada foi sua última obra, lançada em 2019, e é composta de relatos sobre a senioridade, tanto seus quanto de outras pessoas trans idosas que foram entrevistadas. 

    Com isso, Nery criou um panorama sobre a terceira idade trans que não se encontra por aí facilmente e que dá visibilidade a temas e preconceitos que precisam ser refletidos. 

    Se quisermos saber quem somos, onde estamos e para onde vamos, temos que conhecer as pessoas que vieram antes de nós, como nos ensinam diversas culturas que valorizam a senioridade e os antepassados.

    “Fez-me concluir que teria que ser muito amado para ser compreendido”
  • Amara Moira
    E se Eu Fosse Puta
    R$ 19,90

    Publicado em 2016, o livro de Amara tem dois nomes, graças à censura sofrida por parte das próprias livrarias que não queriam o termo “puta” estampado em suas prateleiras, como nos conta a autora na mais nova edição do livro. 

    Como estratégia, Amara sobrescreveu um “R” em puta e renomeou seu livro para “E se eu fosse puRa”. Uma saída fantástica, que faz da violência sofrida uma marca que não apaga completamente aquilo que se passou. 

    O livro de Amara surgiu como um blog que contava suas experiências da travestilidade que nasciam cruzadas à prostituição e à escrita. É delicioso acompanhar como ela tece esses pontos nos levando a refletir sobre assuntos que a sociedade normativa considera como tabus.

    Além de escritora, Amara também é professora de Literatura e doutora em Teoria Literária pela Unicamp. Vale muito conhecê-la e acompanhá-la nas redes!

    “Sou tratada igual puta bem antes de me assumir puta”
  • Luísa Marilac e Nana Queiroz
    Eu, Travesti: Memórias de Luísa Marilac
    R$ 26,00

    Luísa Marilac lançou esse livro, em coautoria com Nana Queiroz, em 2019. Nele encontramos a trajetória de uma pessoa que apresenta com orgulho e respeito o caminho que trilhou, e que faz jus ao ditado, de Luana Muniz, que diz que “travesti não é bagunça”. 

    Marilac, que ficou conhecida pelo vídeo em que aparece em uma piscina na cobertura de um prédio dizendo: “E teve boatos que eu ainda estava na pior. Se isso é estar na pior, Porram! O que quer dizer tá bem, né?”, nos mostra, com bom humor e sagacidade, como a vida travesti é atravessada por dificuldades impostas pelas culturas dominantes que tentam a todo tempo apagar e exterminar toda diversidade. 

    Uma leitura valiosa para quem quer conhecer mais da cultura travesti, com sua língua e características próprias, forjadas na complexa mistura da marginalização sofrida cruzada com valores e filosofias que são próprias das experiências de vida que não se reduzem às normatividades de sexo/gênero.

    “E teve boatos que eu ainda estava na pior. Se isso é estar na pior, Porram! O que quer dizer tá bem, né?”